SOBRE O NuPIC
O Núcleo de pesquisa em inovação curricular (NuPIC) é um grupo de pesquisa em ensino de ciências coordenado pelo professor Maurício Pietrocola da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Formado por estudantes de pós-graduação, bolsistas e professores da educação básica, com colaborações ativas em países da Europa e da América Latina, as principais atividade do NuPIC são a pesquisa acadêmica aplicada, o desenvolvimento de materiais para a sala de aula e a formação de professores. Como o próprio nome indica, o principal objeto de trabalho do NuPIC é a identificação de temáticas inovadoras e relevantes, que permanecem ausentes do currículo de ciências. São objeto de investigação tanto as razões desta ausência quanto os caminhos para a inserção, compreendendo o ecossistema da escola e seus agentes, como um campo de forças importante que interfere diretamente no currículo, garantindo a entrada e a permanência de alguns temas e resistindo a outros, mesmo quando esses apresentam uma forte relevância social ou científica e demonstram alto potencial formativo. Uma vez identificados os elementos de interesse, o grupo investe em pesquisas aplicadas, fortemente sustentadas por uma fundamentação teórica convergente para balizar o caminho da inserção em sala de aula.
GÊNESE DO NuPIC
Em 2003, Maurício Pietrocola chega à USP trazendo com ele uma tradição na formação de professores e na pesquisa teórica envolvendo modelos e modelizações no ensino de ciências, transposição didática e o uso da epistemologia e história da ciência para o ensino. Com o apoio de pesquisadores de renome que ali estavam (como Anna Maria Pessoa de Carvalho), ele assume a coordenação de uma equipe de professores da educação básica que até então atuava em pesquisas realizadas pelo LAPEF (Laboratório de Pesquisa em Ensino de Física) e redireciona o trabalho para investigar a inserção da Física Moderna no currículo do Ensino Médio. Já naquele período, havia uma discussão consolidada na comunidade acadêmica sobre porque o tema deveria ser levado para a escola, mas poucos resultados de trabalhos empíricos apontavam alternativas sobre como fazê-lo. Em 2004, com o apoio financeiro da FAPESP, inicia-se o projeto que marca a origem e define o DNA do grupo de pesquisa que persiste até hoje.
2009 - 2012 O TEMPO DA FÍSICA MODERNA
Durante quatro anos, o grupo contribuiu fortemente com a pesquisa acadêmica teórica e aplicada sobre a inserção de temáticas inovadoras no currículo escolar do Ensino Médio do Brasil. Entre os temas abordados pelos trabalhos desse período, muitos estão relacionados à Física Moderna como: a dualidade onda-partícula, a Física de partículas e a radiação. Em paralelo, outros problemas que emergiam para a pesquisa naquele período também foram enfrentados como a influência dos contextos nacionais na produção científica e o uso da História da Ciência no ensino.
Após três anos de bons resultados, um projeto temático financiado pela FAPESP contribuiu para estruturar definitivamente a equipe e ampliar o alcance do trabalho. Eram dois os objetivos da proposta: 1. consolidar os resultados obtidos nas pesquisas realizadas até aquele período, o que foi feito através da elaboração de material didático disponibilizado no site. 2. Ampliar a inserção da Física Moderna nas escolas. Para isso, foram realizados cursos de 120 à 180 horas de trabalho, certificados pela Faculdade de Educação que contaram com a participação de grupos com 40 a 50 professores de todo o estado de São Paulo. Além de promover aprendizagens sobre a temática em discussão, os eventos serviam como oportunidade formativa para as próprias equipes do NuPIC. Um exemplo são os professores que estavam no processo desde o início tendo inclusive contribuído na produção dos materiais didáticos. Eles se tornaram multiplicadores das oficinas que compunham os encontros, atuando assim na formação dos seus próprios colegas. Essa dinâmica positiva explica que a maioria desses docentes continuaram posteriormente na vida acadêmica.
É nesse período que surge a demanda por um nome e uma logomarca para identificar as ações realizadas e os materiais produzidos pela equipe. A primeira versão adotada foi Núcleo de Pesquisa em Inovação Curricular em Ciências que gerou o acrônimo NuPIC2. Com o uso, (e a dificuldade em inserir símbolos nas plataformas digitais das agência financiadoras de pesquisa) perdeu-se o segundo C dando então origem ao NuPIC. Como logomarca, a referência escolhida foi a fita de Möbius, que foi estilizada e complementada com palavras chave representativas da pesquisa feita pelo grupo. A referência sobreviveu ao tempo, ainda que na versão atual se tenha optado por uma forma visualmente mais leve e adaptada às demandas e usos em diferentes suportes digitais.
UM REFERENCIAL TEÓRICO EM EVOLUÇÃO
Entre os elementos que permaneceram estáveis ao longo de toda a trajetória do NuPIC, o de maior relevância é a parceria com a escola pública. O que o núcleo desenvolve não é apenas pesquisa teórica envolvendo inovação curricular, mas um estudo aprofundado e empírico sobre as possibilidades reais de como temas inovadores podem ser levados para a sala de aula.
Ao mesmo tempo, o referencial teórico adotado evoluiu para acompanhar tanto os interesses de pesquisa quanto as demandas oriundas dos temas investigados. Estes, por sua vez, transformaram-se junto com as ciências, a sociedade e a escola. Nos primeiros anos do núcleo, a TRANSPOSIÇÃO DIDÁTICA marcou a pesquisa produzida e os materiais didáticos que dela se desdobraram. A escolha materializa o cuidado com o processo que leva elementos de fora para dentro da escola, entendendo que não se trata apenas de inserção mas da construção de verdadeiras pontes entre dois mundos. Ainda hoje, essa referência permanece enquanto uma dimensão menos explícita, um pressuposto compartilhado, relacionado à crença de que nada do que acontece na sociedade pode ser levado para a escola sem a devida adaptação.
A interação com Ken Tobin da Universidade de Nova York chega ao NuPIC trazendo a noção de BRICOLAGE TEÓRICA. É ela que abre caminho para a diversificação do referencial teórico ao trazer legitimidade ao necessário exercício de diversificar o conjunto das referências que sustentam uma mesma pesquisa. Para o autor, é papel do pesquisador organizar a combinação de diferentes teorias, costurando-as de modo que constituam um corpo teórico único, coerente e coeso. Com isso, abre-se o caminho para a entrada da discussão sobre o papel das EMOÇÕES NO ENSINO DAS CIÊNCIAS que passam a integrar o painel de referenciais relevantes que sustentam as pesquisas do grupo.
Na interseção dos temas acima mencionados está a preocupação com um contexto específico: as emoções que permeiam o processo de aceitação ou recusa de temas inovadores no trabalho docente. O que motiva ou não um professor a sair da trilha do tradicional e embarcar na inovação curricular? Um mergulho no estudo dessa temática, realizado pelo coordenador do NuPIC ao passar um ano como professor visitante da Universidade de Nova York trouxe para o grupo uma nova temática de interesse: o RISCO DIDÁTICO. Curioso elemento teórico, fortemente relacionado à discussão sobre confiança, seu papel mais importante na história do NuPIC foi o de redefir a direção da pesquisa, servido como uma porta de entrada para autores essenciais nas pesquisas realizadas atualmente. O primeiro a chegar foi o sociólogo Anthony Giddens, que aborda com precisão uma definição sofisticada e potente: a segurança ontológica. Junto com ela, vem o conceito de SOCIEDADE DO RISCO definido pelo sociólogo alemão Ulrich Beck. Juntos, eles representam a fase atual do NuPIC, formalizada através de publicações e projetos elaborados e implementados através do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA/USP).
AS INOVAÇÕES CURRICULARES DE HOJE
A pandemia trouxe para o mundo e para o Brasil em particular, a configuração de um período diferente de tudo o que se viveu antes. Essa realidade transformada impacta diretamente o ensino de ciências, impondo ao currículo escolar, novos temas tão inovadores quanto indispensáveis. Agora, os grandes desafios da contemporaneidade não podem mais ser percebidos como erros solucionáveis através de produtos oriundos das ciências e da tecnologia. Do mesmo modo, não se pode esperar que os cientistas ofereçam soluções aos problemas enfrentados. Sequer esses problemas podem ser vistos como males a serem combatidos, trata-se antes do resultado ou da consequência direta das ações produzidas dentro da própria matriz de desenvolvimento social.
Assim, o processo que permitiu a existência disso que se poderia chamar de “progresso”, também trouxe os problemas que ameaçam a própria existência humana. Por exemplo: o uso intensivo de combustíveis fósseis barateou o transporte e o uso da energia permitindo a automatização de processos de todo tipo, bem como muitas das evoluções sociais conhecidas e valorizadas. Ao mesmo tempo, ele também gerou uma grande quantidade de gases que estão presentes na atmosfera, contribuindo com a mudança do regime de funcionamento do clima no planeta e ameaçando o sistema como um todo. Esse efeito não foi nem poderia ter sido identificado no início do processo de industrialização, ainda que seja um desdobramento dele. Assim, se por um lado existe a necessidade de se compreender o aquecimento global na perspectiva de um conhecimento disciplinar (que poderia ser o da termodinâmica da atmosfera ou a sua composição química por exemplo), sabe-se hoje que nem ela, nem o somatório de conclusões obtidas em abordagens isoladas, permitiria alcançar uma compreensão adequada do que está acontecendo no mundo. Sim, é necessário dispor do conhecimento especializado mas é também indispensável integrar esses conhecimentos para que se possa discutir a gestão das situações enfrentadas e, quando possível, a melhor solução para os problemas. Essa análise demonstra que não é apenas o ensino das ciências que precisa ser revisto mas toda a cadeia na qual se localizam os processos formativos mas ainda, a existência e o papel dos especialistas.
Atualmente, as pesquisas conduzidas pelo NuPIC estão relacionadas ao risco, a incerteza e o futuro, em uma tríade indissolúvel que pressiona a escola e o currículo. Ele conta com parcerias internacionais sendo a mais importante delas com a pesquisadora Olivia Levrini da Universidade de Bolonha.
